Cultura in e útil

Cultura é "in". Impressiona a memória fática, que reduz os grandes vôos do espírito às suas circunstâncias psico-sociais. Cultura é útil. Ao contar a história das idéias e dos sentimentos, encadeados como causas dos seus efeitos e efeitos das suas causas, ajuda o homem a ser agente e causa, mais do que vítima e efeito, da sua circunstância. Idéias estão aí há séculos, entrando e saindo da moda, ao sabor dos sentimentos vigentes. Parecem inatas, mas são pensadas e sentidas. Tão mais inatas parecem quanto maior a carência afetiva da época que anseia por elas. Dogmas são convicções entranhadas, portanto mais intestinas do que cerebrais.
O princípio ético do estoicismo de Zeno (aí o útil) é: o que importa é a virtude, única finalidade verdadeira. Nisto, afirma a liberdade humana. Virtude depende apenas da vontade e a vontade é sempre livre para ser boa ou má. Felicidade é praticar a virtude, evitando o engano dos prazeres mundanos. Mais do que prazer, é paz de espírito, ausência de dor, tranqüilidade e harmonia - estado de alma designado como "ataraxia". É evidente o parentesco com o desapego budista. O segundo princípio estóico, o determinismo, encerra uma contradição. A vontade é boa quando está de acordo com a Natureza, entendida não como realidade contingente, mas como princípio orgânico do Universo, com suas leis e finalidade.
O "in"teressante não é a história do campeonato, mas a emoção da partida, a circunstância do goleador. Epícteto escreveu "A Arte de Viver", com conselhos úteis repetidos pelos manuais de auto-ajuda modernos, sem citar a fonte esquecida ou ignorada: distinga o que depende da sua vontade e o que independe dela, aja apenas sobre o que pode influenciar e não se deixe influenciar pelo que está fora do seu controle; não são as coisas que nos perturbam, mas sim o significado que lhes emprestamos; o que fazemos é menos importante do que a maneira como o fazemos: a harmonia da vontade com a Natureza é o seu maior ideal; aceite a realidade como ela é, sem ilusões; concentre-se na realidade do presente, que será verdadeira para sempre; caráter importa mais do que glória. E por aí vai.
Adaptado da coluna de Jaime Wagner, publicada em 14/05/2007.

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